quarta-feira, 18 de novembro de 2009

POR SUGESTÃO DE UM COSTELETA







POR SUGESTÃO DE UM COSTELETA
LITERATURA

MST, EU e RAUL BRANDÃO

NÃO TE DEIXAREI MORRER, DAVID CROCKETT
De Miguel Sousa Tavares

Miguel Sousa Tavares, é um extraordinário contador de histórias e um escritor dum enorme gabarito e profundidade. E é maravilhoso na pequena crónica, como vem na página 122 do David Crockett, que passo a transcrever por ser lindo...

“De casa até à escola eram quatro quilómetros, feitos a pé, ocasionalmente de carro de bois. No Inverno, os caminhos da Serra estavam gelados e até eu, que era talvez o único dos alunos que não ia para a escola descalço, quase não sentia os pés.
Eu era o aluno «rico», entre cinquenta alunos verdadeiramente pobres naquela escola modelo- standard Estado Novo, perdida na Serra do Marão a poucos quilómetros de uma aldeia que jamais saiu em mapa algum...

(Favor ler o resto...)

Os montanheiros como eu também sofreram na carne as agruras do inverno e estamos aí.... Como se pode ver neste meu pequeno escrito.

AS “VENDAS” DOS BRACIAIS
Crónica de João Brito Sousa

- A Taberna? Trata de quê?, de vinho, de bêbados?
- Não. Trata da vida, da vida de pessoas infelizes.
- Faz chorar?
- Faz pensar.
- Pensar?
- Sim, a Taberna é um livro que ensina.

Baptista-Bastos em o Cavalo a Tinta da China.

No meu tempo de menino, nos Braciais havia a venda do Ti Zé Manelinho, apenas. Nasci com aquele nome em casa e sem saber por que é que aquele local de comércio era denominado de “A VENDA”. Hoje até perguntei à minha mulher como eram chamados, na sua terra de origem, os locais de venda de bens alimentares, líquidos e sólidos, necessários para satisfação de necessidades correntes. “É a Venda.” disse ela. Concluí que talvez a palavra “Venda” viesse substituir a expressão local de venda, o local onde se vendiam os bens. Para simplificar, ficou venda... tudo bem! Consultado o dicionário, diz que Venda é o estabelecimento humilde, aberto por negros libertos da escravidão; ou pequena mercearia e bar; ou só mercearia. Está explicado.

Estávamos nos anos cinquenta, no tempo do Presidente CARMONA, aquele que dizia: “Vemo-nos quando nos virmos”, e as pessoas viviam com muitas dificuldades. No Inverno, quando chovia, praticamente não havia trabalho nos campos. No Verão, desciam ainda os alentejanos para perto da cidade de Faro e os recursos financeiros disponíveis das populações do campo eram praticamente os mesmos ou quase nulos. Fosse no Inverno ou no Verão, a minha mãe mandava-me à Venda buscar pão ou outra coisa qualquer, mas não levava dinheiro... porque, simplesmente, a minha mãe não o tinha e dizia-me: “João, diz à vizinha que aponte!” E lá ia eu às compras, trazia a mercadoria e, quanto a pagamento... ia para o livro.

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A Venda... apesar de tudo, uma saudade! Patrão, vai um copo?!...

João Brito Sousa

E agora este extraordinário naco de prosa de Raul Brandão retirado do texto ' Se Tivesse de Recomeçar a Vida '

“UM SENTIDO PARA A VIDA...”

“Valeu-me a pena viver? Fui feliz, fui feliz no meu canto, longe da papelada ignóbil. Muitas vezes desejei, confesso-o, a agitação dos traficantes e os seus automóveis, dos políticos e a sua balbúrdia - mas logo me refugiava no meu buraco a sonhar. Agora vou morrer - e eles vão morrer.

A diferença é que eles levam um caixão mais rico, mas eu talvez me aproxime mais de Deus. O que invejei - o que invejo profundamente são os que podem ainda trabalhar por muitos anos; são os que começam agora uma longa obra e têm diante de si muito tempo para a concluir. Invejo os que se deitam cismando nos seus livros e se levantam pensando com obstinação nos seus livros. Não é o gozo que eu invejo (não dou um passo para o gozo) - é o pedreiro que passa por aqui logo de manhã com o pico às costas, assobiando baixinho, e já absorto no trabalho da pedra.

Se vale a pena viver a vida esplêndida - esta fantasmagoria de cores, de grotesco, esta mescla de estrelas e de sonho? ... Só a luz! só a luz vale a vida! A luz interior ou a luz exterior. Doente ou com saúde, triste ou alegre, procuro a luz com avidez. A luz é para mim a felicidade. Vivo de luz. Impregno-me, olho-a com êxtase. Valho o que ela vale. Sinto-me caído quando o dia amanhece baço e turvo. Sonho com ela e de manhã é a luz o meu primeiro pensamento. Qualquer fio me prende, qualquer reflexo me encanta. E agora mais doente, mais perto do túmulo, busco-a com ânsia.

A literatura é o doce da vida, diz Baptista-Bastos, será?:..

Recolha de
João Brito Sousa

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